quarta-feira, 17 de março de 2010

O drama de Luís de Camões

Conta a História que Camões, enquanto servia à Patria Portuguesa no Oriente, enamorou-se de certa chinesa de nome Dinamene. Ela, que viajava com ele num navio, morreu afogada na foz do Rio Mekong, enquanto o escritor nadava com um braço e com o outro segurava os manuscritos originais d'Os Lusíadas.

SÔBOLOS RIOS

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val,
que então se entende milhor
quanto mais perdido for;
vi o bem suceder o mal,
e o mal, muito pior,
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento,
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

.......................
Luís Vaz de Camões
Texto disponível em: http://www.albertomesquita.net/am/moleskine/SobolosRios.html
Acesso em 17 MAR 2010.

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