domingo, 10 de maio de 2009

Há muito tempo atrás... - parte 2

"Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o sombrio progenitor da encantadora menina.
Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos olhos.
Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a palavra — Hypothecas.
— Estas bem estão — murmura elle coçando distrahidamente com a mão direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique — Estas bem estão... O peor são as outras...
Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de mau humor.
— Aqui está! — disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os papeis — Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as propriedades pelo preço da louvação...
Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes.
Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si, dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe ensombrava o barbudo rosto."
Trecho de “Os Filhos do Padre Anselmo”, do escritor português António José de Albergaria (1850-1921).
Fonte: http://pt.wikisource.org/wiki/Os_Filhos_do_Padre_Anselmo/III