terça-feira, 15 de julho de 2008

Mais uma voz contra o novo acordo da ortografia

Trecho de um texto de Hélio Schwartsman, da Folha de São Paulo, a respeito da reforma ortográfica, publicado em 29 de maio último:

“Encabeça o rol dos desvarios oficiais a estapafúrdia reforma ortográfica que, depois da capitulação do Parlamento português, deverá começar a ser adotada dos dois lados do Atlântico.
Mais uma vez, burocratas pretendem enfiar-nos caprichos lingüísticos alheios goela abaixo. Há aí dois despropósitos e uma sacanagem. Em primeiro lugar, a reforma proposta é ruim: gasta-se muita energia para obter avanços menos do que tímidos em termos de unificação da escrita dos países lusófonos. Em segundo e mais importante, é errado e inútil tentar definir os rumos de uma língua natural --grafia inclusa.
Quanto mais penso, mais fico revoltado. Toda a situação pode ser resumida como um conluio entre acadêmicos espertos e parlamentares obtusos para, à custa do esforço de algo como 300 milhões de usuários da língua portuguesa, que terão de perder tempo "reciclando-se", beneficiar meia dúzia de editores que já têm prontos dicionários, gramáticas, cursos de atualização e material didático de acordo com a "nova ortografia".
Nunca foram meia dúzia de consoantes mudas --como nas formas lusitanas "adopção" e "óptimo"-- que constituíram barreira à intercomunicabilidade entre leitores e escritores dos dois lados do oceano. O mesmo se pode dizer do trema, das quatro ou cinco regras de acentuação que serão alteradas e das sempre exóticas disposições sobre o hífen --os demais pontos que a reforma abarca. Se há empecilhos à boa compreensão entre falantes do Brasil, de Portugal e de países africanos e asiáticos, eles estão na escolha do léxico e no uso de expressões locais, felizmente ao abrigo da sanha legiferante de dicionaristas e parlamentares.
Línguas são como organismos vivos: nascem, crescem e morrem. Fazem-no independentemente de leis e decretos. E, até onde me lembro, jamais deleguei a nenhum parlamentar ou governante poderes para regular o meu quinhão do contrato social lingüístico que vigora entre falantes de um idioma. Se dependesse de mim, o acordo seria denunciado e todos poderíamos seguir escrevendo sem a interferência de burocratas de pouco tino.”


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