sexta-feira, 30 de maio de 2008

A polêmica da reforma ortográfica

Essa "bendita" reforma já era polêmica desde o início, como podemos ver neste texto extraído da revista Veja:

25 de maio de 1995

ARTIGO
Uma ação que além de vã é frívola

Ficar promovendo reformas na ortografia
é o supra-sumo de não ter nada que fazer

Roberto Pompeu de Toledo

Já não basta ficarem mexendo toda hora no valor e no nome do dinheiro? Nos juros, no crédito, nas alíquotas de importação, no câmbio, na Ufir e nas regras do imposto de renda? Já não basta mudarem as formas da Lua, as marés, a direção dos ventos e o mapa da Europa? E as regras das campanhas eleitorais, o ministério, o comprimento das saias, a largura das gravatas? Não basta os deputados mudarem de partido, homens virarem mulher, mulheres virarem homem e os economistas virarem lobisomem, quando saem do Banco Central e ingressam na banca privada?
Já não basta os prefeitos, como imperadores romanos, tentarem mudar o nome de avenidas cruciais, como a Vieira Souto, no Rio de Janeiro, ou se lançarem à aventura maluca de destruir largos pedaços da cidade para rasgar avenidas, como em São Paulo? Já não basta mudarem toda hora as teorias sobre o que engorda e o que emagrece? Não basta mudarem a capital federal, o número de Estados, o número de municípios, e até o nome do país, que já foi Estados Unidos do Brasil e depois virou República Federativa do Brasil?
Não, não basta. Lá vêm eles de novo, querendo mudar as regras de escrever o idioma. "Minha pátria é a língua portuguesa", escreveu Fernando Pessoa pela pena de um de seus heterônimos, Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego. Desassossegados estamos. Querem mexer na pátria. Quando mexem no idioma, põem a mão num espaço íntimo e sagrado como a terra de onde se vem, o clima a que se acostumou, o pão que se come.
Aprovou-se recentemente no Senado mais uma reforma ortográfica da língua portuguesa. É a terceira nos últimos 52 anos, depois das de 1943 e 1971 - muita reforma, para pouco tempo. Uma pessoa hoje com 60 anos aprendeu a escrever "idéa", depois, em 1943, mudou para "idéia", ficou feliz em 1971 porque "idéia" passou incólume, mas agora vai escrever "ideia", sem acento.
Reformas ortográficas são quase sempre um exercício vão, por dois motivos. Primeiro, porque tentam banhar de lógica o que, por natureza, possui extensas zonas infensas à lógica, como é o caso de um idioma. Escreve-se "Egito", e não "Egipto", mas "egípcio", e não "egicio", e daí? Escreve-se "muito", mas em geral se fala "muinto". Segundo, porque, quando as reformas se regem pela obsessão de fazer coincidir a fala com a escrita, como é o caso das reformas da língua portuguesa, estão correndo atrás do inalcançável. A pronúncia muda no tempo e no espaço. A flor que já foi "azálea" está virando "azaléa" e não se pode dizer que esteja errado o que todo o povo vem consagrando. Poder se pronuncia "poder" no Sul do Brasil e "puder" na Pefelândia, onde fica o Brasil do Nordeste. Querer que a grafia coincida sempre com a pronúncia é como correr atrás do arco-íris, e a comparação não é fortuita, pois uma língua é uma coisa bela, mutável e misteriosa como um arco-íris.
Acresce que a atual reforma, além de vã, é frívola. Sua justificativa é unificar as grafias do português do Brasil e de Portugal. Ora, no meio do caminho percebeu-se que seria uma violência fazer um português escrever fato quando fala facto, ou recepção quando fala receção, da mesma forma como seria cruel fazer um brasileiro escrever facto ou receção (que ele só conhece, e bem, com dois S, no sentido de inferno astral da economia). Deixou-se então que cada um continuasse a escrever como está acostumado, no que se fez bem, mas, se a reforma era para unificar e não unifica, para que então fazê-la? Unifica um pouco, responderão os defensores da reforma. Mas, se é só um pouco, o que adianta? Aliás, para que unificar? O último argumento dos propugnadores da reforma é que afinal ela é pequena - mexe com 600, entre as cerca de 110.000 palavras da língua portuguesa, ou apenas 0,54% do total. Se é tão pequena, volta a pergunta: para que fazê-la?
Haveria outros argumentos contra a reforma, mas nenhum tão importante quanto o esboçado acima, de que língua é como pátria, e em pátria não se mexe, ou pelo menos não se mexe toda hora. Fala-se que a reforma simplifica o idioma e assim torna mais fácil seu ensino. Engano. A língua é um bem que percorre as gerações, passando de uma à outra, e será tão mais bem transmitida quanto mais estável for, ou, pelo menos, quanto menos interferências arbitrárias sofrer. Não se mexa assim na língua. O preço disso é banalizá-la como já fizeram com a moeda, no Brasil.

Texto disponível em:

http://veja.abril.com.br/arquivo_veja/artigo_28051995.shtml

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O novo acordo ortográfico

Já faz alguns anos que ouço falar em "Acordo Ortográfico". Dizem que é para uniformizar a grafia do português no mundo, já que temos duas: a brasileira e a luso-africana.
Essa reforma, entretanto, contém algumas aberrações.
O caso mais típico é o pobre coitado do trema (¨). Pode até parecer um tanto inútil, porém tem uma importância ímpar, já que ele é quem dá forma à pronúncia de algumas palavras, como cinqüenta, lingüiça, agüentar, bangüê, etc..
Agora imagine essas palavras sem o trema, já muda a pronúncia.
Eu sou contrário ao fim do trema.
Outra mudança será o fim do acento agudo em palavras como vôo, enjôo, dêem, crêem, que se tornarão voo, enjoo, deem, creem...
Bom, ainda tem a retirada do hífen em umas palavras, e a colocação do mesmo em outras.
Anti-semita será antissemita, reeleição transformar-se-á em re-eleição.
Ah sim, terá a volta das letras k, w e y, arbitrariamente retiradas do alfabeto na reforma de 1943. Quanto a elas só tenho dúvida numa coisa: com essas letras retornando, voltaremos a escrever Paraguay, Goyás, Niteroy, Aracaty, Syria, kilômetro (ou kilómetro em Portugal), kilograma e wisigodo?
'Tá muito solto isso, falta clareza.
Diz o Prof. Pasquale: “Claro que é uma reforma política. O Brasil quer dizer que é o dono da língua”.
É muito séria essa acusação dele. Nesse sentido, faltou humildade ao Brasil e firmeza a Portugal.

Por falar em humildade, humidade em Portugal será como no Brasil: umidade; herva será erva, e por aí vai...
Todas as reformas, desde a unilateral de 1911, com os portugueses sem os brasileiros, até as outras, só serviram para mostrar uma coisa: que desde então ambos os países querem monopolizar o idioma, Portugal porque é a pátria-mãe, e o Brasil porque é o que tem mais falantes no mundo.
Se for pelo bem da Língua Portuguesa, toda reforma é válida, o que não pode é um país querer impor aquilo que lhe agradar, para contrariar os outros.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

A cultura ultramarina portuguesa

É com o nome de "O Multiluso" que inicio este blog. O Multiluso visa mostrar as realizações da cultura lusófona pelo mundo, até mesmo onde o português nem é mais falado.
E procuro demonstrar minha paixão pela "Última Flor do Lácio", copiando o poeta Olavo Bilac, esta língua portuguesa tão maltratada por quem deveria zelar pela integridade dela.
Na foto, as ruínas da catedral de São Paulo em Macau (China), última possessão ultramarina portuguesa, devolvida aos chineses em 1999.
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Fonte da foto: